Software Livre sem Cortina de Ferro

Em um trecho de entrevista do presidente uruguaio José Mujica no Pragmatismo Político, ele coloca em xeque uma crença trágica que marcou a União Soviética e seus seguidores: a idéia de que o essencial para construir uma nova sociedade era alterar as bases materiais da produção de riquezas. Mujica acredita que o sistema em que estamos vivendo precisa e pode ser superado, mas através de um processo lento, e que, mesmo não aceitando filosoficamente o capitalismo, estamos cercados por ele e por seus costumes.

Enquanto a sociedade real funciona, mesmo que capitalista, é preciso fazer as coisas. Impostos devem ser cobrados para mitigar as dificuldades sociais mas não se deve cair no conformismo crônico  de achar que apenas reformando o sistema se vai a algum lado. É o que diz Mujica.

E o que isso tem a ver com computação ou software livre?

Há constantes debates a respeito de usuários que utilizam softwares proprietários em distribuições Linux, alguns não vêem problema nisso mas outros são radicalmente contra.

O Linux ainda é um sistema temido por alguns usuários por ter ganho fama de ser um  ‘sistema difícil de manusear’ e ser um ‘sistema que não roda nada’. O sistema teve sim seus problemas no começo mas essa fama vem deixando de fazer sentido cada vez mais. Essa evolução não poderia ter ocorrida nessa velocidade se não tivesse cedido ao uso de alguns softwares proprietários.

É assim que podemos, por exemplo, utilizar interfaces de rede através de drivers proprietários, já que as empresas se recusam a desenvolver drivers com licença livre. O argumento é de que todos poderiam saber como o equipamento funciona e isso poderia ser usado pela concorrência. Com esse argumento caímos no típico pensamento mercadológico dos software proprietários de pagarmos pelo produto e não termos a liberdade de saber como funciona.

Infelizmente a comunidade Linux, apesar da filosofica libertária, teve que utilizar drivers proprietários senão teríamos sistemas Linux sem acesso à internet, o que seria uma verdadeira parada no tempo. O que temos que fazer é ceder ao seu uso mas que desenvolvedores continuem em busca de alternativas livres que substituam as proprietárias à altura.

Outra reclamação recorrente dos usuários de Linux era a falta de jogos suportados pela plataforma. Alguns usuários gamers até reconhecem a robustez do sistema mas afirmam não utilizá-lo pela incompatibilidade com os jogos modernos.

Foi com isso que a Valve, empresa por trás do Steam, resolveu dar portabilidade de alguns de seus jogos para Linux. Agora os jogos não eram mais desculpa para não usar Linux. Tudo bem que esses jogos são softwares proprietários, mas ver jogos robustos rodando num sistema Linux era o sonho de muitos usuários e isso pode fazer com que mais empresas voltem seus olhos para o sistema, pois houveram até casos de jogos que rodaram melhor no Linux.

No momento em que foi escrito esse texto, a Steam já possuía suporte a mais de 530 jogos para Linux.

No fim das contas, algumas vezes devemos dar um passo pra trás para podermos dar dois pra frente.

Agora o discurso de Mujica no início do texto deve fazer mais sentido. Assim como foi citado o capitalismo, estamos cercados de empresas e softwares proprietários e não podemos simplesmente negá-los se no momento não temos condições de oferecer qualidade apenas com o que temos.

Assim como também foi dito que “não devemos cair no conformismo de achar que apenas reformando o sistema se vai a algum lado”, apesar de fazer uso de software proprietário não devemos nos contentar em apenas utilizá-los, e sim buscar meios de procurar fazer um produto livre à altura.

O usuário deve utilizar produtos que tenham qualidade e não se sentir forçado a utilizar um produto só pelo fato de ser livre. A solução é ter alternativas que convençam o usuário a usá-lo, pois estamos falando de um sistema livre e não há espaço para imposição.

Revisado em 06/09/2017

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