Arquivo da categoria: Esporte

O que você preferia que o Brasil tivesse recebido em 2014, uma Copa do Mundo ou Snowden?

Um fato importante marcou 5 de fevereiro de 2016, o Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária da ONU reconheceu que a “prisão” de Julian Assange na embaixada do Equador no Reino Unido é ilegal. Uma procuradora sueca tentava levar Assange para a Suécia para ser julgado sobre um caso com acusações contestáveis de abuso sexual praticado pelo fundador do Wikileaks, insistência essa também contestada pois a Suécia já havia recolhido mais de 40 depoimentos no Reino Unido em outros casos, segundo o Deutsche Welle.

Tanto o Reino Unido quanto a Suécia negaram que Assange tenha sido privado de sua liberdade e que ele entrou na embaixada do Equador voluntariamente. Declaração curiosa, pois não foi dada nenhuma explicação do porquê policiais passarem o dia rondando a embaixada e que isso tenha tido um custo de £10m (din din público).

Ao falar sobre embaixada me fez lembrar um caso que teve no Brasil, mas antes de falar sobre isso vamos voltar ainda mais. Vamos para 2007. Nesse ano o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014. Apesar de eu ser um grande fã de futebol sempre fui contra que o Brasil a sediasse. Copa do Mundo não é o maior evento futebolístico do mundo, é falcatrua, apenas para deixar os “responsáveis pelo futebol” mais ricos. A escolha das sedes das Copas é algo estrategicamente planejado para não levantar suspeitas da movimentação financeira envolvendo a organização do evento que ocorrerá nesse período.

Agora caminhemos dessa data até junho de 2013. Após todos esses meses de preparação para a Copa e muito dinheiro público envolvido, a situação do país não ia bem, fazendo com que a população começasse a se questionar: “por que tanto dinheiro está indo facilmente para infraestrutura da Copa e os preços estão aumentando?”. A gota d’água foi o aumento da passagem de ônibus nesse mês, que indignou de vez a população e grandes revoltas começaram a acontecer. Paralelamente a isso, outro fato importante aconteceu: Edward Snowden ganharia fama mundial por vazar documentos da NSA e tinha muita coisa envolvendo o Brasil, relevando que o país estava sendo espionado.

Além da ajuda de Snowden ao Brasil, ao revelar esses documentos, ele quis ajudar ainda mais, ele ofereceu ajudar o país colaborando com as investigações sobre as ações da NSA em troca de asilo político. Foi um assunto bastante debatido na época. Veja o vídeo abaixo da reportagem da TV Brasil.

O que é dito durante a reportagem é interessante: “por que o Brasil não daria asilo a Snowden se deu a Cesare Battisti?”. Este que foi acusado de assassinato, enquanto Snowden “apenas” vazou documentos secretos. A comparação entre os dois ainda pode ser feita por o Brasil ter recusado o asilo a Snowden por ‘ele não ter feito nenhum pedido formal de asilo‘ mas não lembro de Battisti ter feito tal pedido quando lhe foi concedido asilo. Realmente, essa recusa ainda é uma incógnita.

Passou a Copa, a seleção de futebol foi humilhada em sua própria casa e isso ainda foi pouco se levar em conta os gastos exagerados. Todos os estádios tiveram superfaturamento.

Screenshot from 2016-02-05 21:06:13 Screenshot from 2016-02-05 21:06:24
Fonte: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/04/27/previsao-oficial-de-custo-dos-estadios-da-copa-ja-subiu-r-992-mi-dinheiro-publico-vai-pagar-97.htm

Após ter passado esses dois acontecimentos paralelos, fica a pergunta: o que você preferia ter recebido em junho de 2014, uma Copa do Mundo ou Edward Snowden?

Revisado em 07/09/2017

Anúncios

Liga Sul-Minas-Rio: um exemplo de contestação à autoridade

O Campeonato Brasileiro de Futebol vem sendo realizado oficialmente com esse nome desde 1971. Apesar da bagunça de nunca ter tido a mesma forma de disputa por dois anos seguidos (basta ver na Wikipedia a página dos campeonatos de cada ano) é considerado a mais importante competição de futebol do país. Da mesma forma que o acesso à informação vem conscientizando as pessoas em todo o mundo e enfraquecendo entidades ou até mesmo derrubando presidentes de países, como aconteceu na Primavera Árabe, o futebol não ficou de fora do combate à autoridades.

O jornalista escocês Andrew Jennings vem investigando a CBF muito antes de vir à tona as acusações contra Ricardo Teixeira e toda a entidade em geral. Ele escreveu vários livros tanto sobre a CBF quanto da FIFA mas suas declarações e pesquisas não chamavam atenção da grande mídia no Brasil, os únicos que pareciam se importar com que ele falava eram os jornais independentes.

Os canais ESPN do Brasil parecem ter sido a única fonte que possa ser considerado grande mídia que constantemente  noticiavam o que Jennings relatava sobre corrupção no futebol. O repórter João Castelo Branco, que é o correspondente do canal na Inglaterra, até o visitou em sua fazenda (vídeo abaixo). Além disso, Jennings já foi convidado num programa de entrevistas do próprio canal.

Enquanto os representantes do futebol estavam cada vez ficando mais ricos, o nível do futebol brasileiro vinha piorando, assim como sua infraestrutura. O futebolista Alex jogou no Brasil de 1995 até 2004, indo para Turquia e só voltando ao país de origem em 2013, revelando ao voltar que havia tomado um susto: após tantos anos fora do Brasil, ele voltou e o nível do futebol estava pior!

Ele e outros jogadores resolveram montar um movimento chamado Bom Senso FC, exigindo melhorias no futebol brasileiro. Os pontos citados pelo movimento podem ser vistos com mais detalhes em seu site oficial. Apesar de sempre buscar o diálogo por melhorias, a entidade máxima do futebol brasileiro nunca pareceu disposta a conversar e parecia estar mais preocupada em deixar as coisas do jeito que está enquanto botavam mais dinheiro em seu próprio bolso. Tanto que para chamar atenção os futebolistas chegaram a combinar a passar o primeiro minuto de jogo de braços cruzados e a CBF se limitou a ordenar que os árbitros dessem cartão amarelo a todos os 22 jogadores, se fosse necessário, para que parassem de protestar.

A partir de 2013 foram várias tentativas de busca de diálogo… em vão. Até que alguns clubes resolveram de juntar e organizar o seu próprio campeonato, a Liga Sul-Minas-Rio, realizado no começo do ano e renegando os campeonatos organizados pela CBF que aconteciam em paralelo. Foi uma demonstração que os futebolistas estão dispostos a uma queda de braço contra a principal entidade do futebol brasileiro, tanto que esta proibiu a realização do campeonato mas foi realizado mesmo assim.

Achei importante citar esse acontecimento para mostrar como a vontade de exercer democracia existe também nos esportes, servindo de argumento para algumas pessoas que dizem não gostar de futebol por se tratar apenas de um pão e circo. É possível traçar um paralelo entre os jogadores como operários responsáveis pela tarefa mais importante do futebol que é fornecer o espetáculo ; a CBF que é o Estado que apenas se diz reguladora e fica com a maior parte do dinheiro arrecadado ; os árbitros que serviram como polícia, pessoas do mesmo nível que os operários mas que escolhem servir ao Estado.

Além disso é importante ressaltar a necessidade de que com ações diretas se podem chegar a mudanças, principalmente quando não se existir diálogo. Que venham mais Ligas Sul-Minas-Rio e campeonatos do tipo e que esse modelo seja seguida pela sociedade em busca de outros direitos.

Revisado em 07/09/2017