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Quando a Kaspersky faz seu papel de proteger as pessoas contra… o governo.

A troca de farpas entre EUA e Rússia é algo antigo que vem desde a Guerra Fria, em meados de 1960. Com o fim da Guerra, a URSS se desintegrou e surgiu a Rússia, que além do nome também mudou seu regime econômico para capitalista, uma medida que resultou num ensaio de conciliação entre os dois países. Mas nem isso foi suficiente para que os dois se dessem bem e a relação ficou ainda mais ríspida quando Vladimir Putin chegou ao Kremlin, ainda nos anos 2000.

A princípio os desentendimentos vinham com relação a posicionamentos em guerras. A Rússia foi contra a Guerra do Iraque enquanto os EUA apoiaram a Geórgia na invasão à Ossétia do Sul, um estado russo, apenas para exemplificar algumas das medidas que confirmam as desavenças. Antes apenas inimigos em confiltos geográficos, os dois países passaram a se enfrentar em outro tipo de guerra: a cibernética.

O primeiro grande embate envolvendo o cyber espaço foi após os vazamentos de Snowden. Mesmo o ex-agente da NSA ter feito um apelo para se refugiar no Brasil, a Rússia demonstrou interesse em recebê-lo, o que acabou até cancelando uma visita de Obama à Rússia.

Outro ponto de tensão foi depois de uma alegação ianque de que hackers russos teriam influenciado o resultado da eleição presidencial de 2016, resultando na vitória de Trump, que era de conhecimento ser uma pessoa próxima de Putin.

De acordo com os oficiais de inteligência dos EUA, hackers tiveram acesso aos e-mails de John Podesta, a pessoa à frente da campanha de Hillary Clinton, sendo esses e-mails publicados pelo Wikileaks, de Julian Assange, outro que não se dá muito bem com os ianques. A suspeita ocorre pelo fato de que Hillary e Putin não têm bom relacionamentos, além do fato de que Trump pudesse favorecer aos interesses russos.

Houve até uma especulação de que Snowden teria contribuído com o ataque, já que estava exilado na Rússia, porém o mesmo chegou a se posicionar sobre o caso, alegando inclusive que não tinha como os EUA provarem que a Rússia foi a responsável pela invasão. Ele relembrou inclusive o caso onde os EUA culparam a Coreía do Norte pela invasão à Sony sem ter provas contundentes disso.

Desde então os EUA vem tentando demonizar a Rússia e um recente episódio foi marcante por caracterizar isso. O alvo da vez foi a empresa de segurança Kaspersky Lab.

A famosa empresa que leva o nome de seu dono, Eugene Kaspersky é bastante conhecida como uma das maiores empresas do ramo de segurança e tem envolvimento em importantes casos como o estudo do Stuxnet. A empresa também é famosa por detectar e corrigir vulnerabilidades de sistemas, principalmente em sistemas Windows.

Com a revelação do Vault7 se tornou de conhecimento as ferramentas usadas pela CIA, algumas delas se aproveitavam de backdoors instalados pela própria CIA para se ter acesso às máquinas. Dentre essas vulnerabilidades estava uma denominada PsSetLoadImageNotifyRoutin, que previne inclusive ser detectada por antivírus e que a Microsoft se negou a lançar um patch de correção.

A Kaspersky Lab então fez sua parte e lançou a sua própria correção para o problema, o software Kaspersky Total Security, gerando um mal estar que culminou em uma investigação dos funcionários da Kaspersky nos EUA pelos Feds. Além da investigação, as empresas privadas foram instruídas a não usarem o software lançado pela Kaspersky sob argumento de não ser um programa confiável.

O que pesa também é o fato da empresa de segurança ter sua sede na Rússia, surgindo alegações de que ela esteja à serviço do país onde se encontra sua sede. Porém, pelo histórico dos países, principalmente pós eleição presidencial de 2016, o caso da Kaspersky vem sendo visto como mais um exemplo de demonização da Rússia.

A Rússia não é vista de bom grado por muitos países, principalmente pela censura à Internet, mas os EUA estão pagando o preço por estarem tentando sempre combater a Rússia sem se apoiar em fatos concretos. A guerra entre os dois não começou ontem e cada vez dá menos sinais de que eles possam chegar a um consenso, principalmente agora que estão se enfrentando no cyber espaço.

Deixando de lado a briga entre os dois países, o que pode-se observar é que a Kaspersky, que muitas vezes protegeu computadores pessoas de vírus, malwares e afins, dessa vez protegeu as pessoas de algo maior: espionagem de um governo.

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Segurança Nacional: um filme que mostra o sonho antigo de militarizar o Brasil

Filmes de ação dos Estados Unidos, quanta gente gosta desse tipo de filme! Um exército ou uma agência secreta e um personagem principal que está à frente de todos e é venerado por toda a agência. Filmes esses que são comuns em terras ianques, que tem um exército ostensivo desde muito tempo por estar constantemente envolvido em guerras, ou em atuação de agências de inteligência por combater ameaças internas ocasionadas pelas guerras e conflitos que o país cria ou se envolve.

Não é de imaginar que vejamos esse tipo de roteiro em um filme brasileiro. Pois não foi isso que pensou Roberto Carminati, um diretor que já tinha no currículo a produção de algumas novelas na Globo. Ele teve a pretensão de misturar um filme de ação típico dos Estados Unidos em um cenário brasileiro.

O filme tem um roteiro fictício onde a Força Aérea Brasileira (FAB) monitorando constantemente a Amazônia para evitar que ela sirva de ponto de entrega de drogas vindas de países vizinhos. A FAB faz uso do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) para monitorar as ações na região.

Além da FAB, há um enorme envolvimento da ABIN, a Agência Brasileira de Inteligência, que como nos filmes estado-unidenses possui um personagem central. O diretor escolheu Thiago Lacerda para o posto, de forma a querer torná-lo o galã que combate criminosos e salva o país.

Enquanto se assiste ao filme é possível notar um pouco de semelhança com o filme True Lies, onde Schwarzenegger é um agente secreto e esconde o serviço da própria família para combater traficante de drogas. O mesmo ocorre em Segurança Nacional, onde Lacerda é um agente secreto e para isso precisa esconder a vida de sua namorada enquanto protege o país de traficantes.

Além de tentar transformar Lacerda em um Schwarzenegger, Carminatti ainda tenta passar com exaustão a importância dos serviços militares no combate à invasão de alguma ameaça externa. Tanto que o filme teve apoio da FAB e do governo brasileiro.

Não é à toa que Carminatti nasceu nos EUA, se formou em cinema por lá e disse ter estudado “como o cinema americano fala das Forças Armadas e de sua história de um jeito positivo”.  Ainda enfatizou que sempre almejou voltar ao Brasil para fazer filmes positivos. Eis então que surgiu Segurança Nacional.

Não tentarei dar uma de crítico de cinema analisando o filme mas ele não foi muito bem recebido. Além do roteiro não ser muito empolgante e as atuações dos atores ficarem devendo, ainda traz uma visão “estado-unidense” do Brasil. Só faltou chamar de Estados Unidos do Brasil.

O filme foi feito em 2010 e demonstrou, mesmo que nesse caso, pessoal, uma idéia de militarizar o Brasil, um país que não se envolve em guerras nem se mete em conflitos entre outros países. O que se percebe é que desde que Dilma Roussef sofreu o impeachment tem-se percebido uma vontade de militarizar o país.

Uma notícia recente em que é possível pegar o gancho com esse filme seria de que o exército dos EUA foi convidado pelo brasileiro a participar de um exército na Amazônia. Teremos soldados americanos por aqui fazendo simulações militares, pelo menos segundo o nosso Exército.

Alguns acreditam que esse acordo possa significar uma aproximação entre os países que possa estreitar a relação militar entre ambos. Se verdade, seria algo realmente perigoso pela quantidade de guerras que os EUA já se envolvem normalmente, imaginem com esse louco na presidência.

O tratamento dado ao “hacker” de Marcela Temer

O legislativo brasileiro tem sugerido projetos de lei relacionados a crimes cibernéticos. Leis essas que não costumam cair no gosto popular pela ambiguidade e por uma clara demonstração dos políticos de não quererem se aprofundar no assunto para saber no que de fato estão propondo, escrevendo a lei mais pelo lobby das grandes empresas.

É de conhecimento também o quão desigual é o tempo de julgamento dos casos de crime no país. Na Lava Jato estamos vendo isso com grande clareza, onde alguns nomes fortes são citados várias vezes em delações e nem se começou uma investigação sequer contra esse nome. Juntando todo o processo da Lava Jato com o tempo de julgamento e o crime cibernético é que se encaixa um personagem com um nome incomum mas que vem sendo muito falado: Silvonei.

Silvonei José de Jesus Souza é um telhadista autônomo que há cerca de 8 anos resolveu comprar um HD usado na Santa Ifigênia por R$250 de um vendedor ambulante. Segundo consta no processo esse HD possuía um banco de dados do provedor de internet do Terra com informações de seus clientes. Um desses nomes era o de Marcela Temer, que com certeza foi o nome que mais chamou atenção, pois estava prestes a se tornar primeira dama (o julgamento do impeachment de Dilma na Câmara estava prestes a acontecer à época). Com isso, Silvonei usou o e-mail de Marcela, que era um dos dados presentes no banco de dados, e restaurou a senha da conta dela do iCloud afim de obter acesso indevido aos dados na conta.

Para conseguir realizar esse ato Silvonei apenas usou o e-mail de Marcela em seu celular e baixou o backup no seu próprio aparelho, tendo acesso às informações. Nada muito sofisticado a ponto de quererem chamar o telhadista de “hacker”.

Essa informação foi confirmada quando foi realizada a perícia no HD do telhadista, que consta no processo que pode ser acessado no site do Tribunal de Justiça de São Paulo e que o Gizmodo Brasil fez uma matéria em cima das informações contidas nesse processo.

O problema em si não foi apenas obter os dados de Marcela e sim o que ele resolveu fazer com eles. Dentre os dados estavam as conversas de WhatsApp de Marcela e umas dessas conversas era dela com seu irmão, Karlo Augusto Araújo, que, na época, era pré-candidato a vereador em Paulínia (SP).

Mas ainda segundo essa matéria, as conversas de WhatsApp no iCloud ficam armazenadas em um arquivo oculto, então como Silvonei conseguiu acessá-las? A própria matéria menciona que existem softwares dedicados à extração de mensagens de WhatsApp no iCloud. Então o fato de apenas usar um software ainda não é o suficiente para chamar o autor do crime de “hacker”.

Com esses dados em mãos, Silvonei conseguiu obter R$15 mil de Karlo e chantageou Marcela a lhe pagar R$300 mil para que não divulgassem seus dados. A futura primeira-dama disse a princípio não ter nada a esconder mas Silvonei lhe mandou o áudio dela com o irmão e afirmou que o diálogo nele contido poderia jogar o nome do marido dela “na lama”. Isso poderia ser preocupante, pois o marido dela na época estava prestes a se tornar presidente.

A partir daí é que começa a surpresa do caso. Como bem reportou o DCM, O Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa de São Paulo (DHPP) não tem uma boa média de solução de casos. O departamento é responsável por investigar crimes de extorsão apenas se for mediante sequestro mas foi designado por Alexandre de Moraes (à época Secretário de Segurança Pública) para que resolvesse o caso. O DHPP então abriu essa exceção e resolveu atuar na investigação de um crime cibernético, que contou com uma equipe de confiança de Alexandre de Moraes.

Silvonei, que até então nunca tinha sido preso, começou a ser investigado em uma operação que teve aspectos cinematográficos, com 33 policiais civis envolvidos, entre delegados, investigadores e peritos, e escutas telefônicas em tempo real. Após a captura do suposto “hacker”, ele teve um julgamento em tempo recorde de 6 meses em um caso que normalmente leva anos para se dar um veredito. Além da pressa do julgamento, o agora réu primário foi condenado a 5 anos e 10 meses de prisão… em regime FECHADO.

Apesar do caso poder ser configurado como crime digital, já que houve uso de um celular para que o crime fosse cometido, a condenação oficial por estelionato, extorsão e obtenção de vantagem indevida. Juntos deram o tempo da pena atribuída a Silvonei.

Mas já que foi um crime cibernético por que Silvonei não foi julgado pela Lei Carolina Dieckmann? Caso fosse, ao invés de estelionato ele seria julgado por “invasão de dispositivo informático”, que teria como pena de 3 meses a 1 ano e multa, ao invés da reclusão de 1 a 5 anos e multa, como no que ele foi julgado. A extorsão também poderia ter sido julgada como “invasão de dispositivo alheio” mas como não o foi, além da pena do estelionato juntou a pena de reclusão, de 4 a 10 anos e multa.

Ou seja, caso fosse julgado de fato por um crime cibernético como consta na lei, ele teria uma pena máxima de 1 ano, podendo ter esse valor aumentado um pouco por ter resultado em prejuízo econômico, ao invés dos 5 anos e 10 meses no qual ele foi condenado.

Temer conseguiu então o que queria, isolou um homem que poderia jogar seu nome “na lama” quando estava prestes a assumir a presidência. Parece ter havido reconhecimento nos esforços de Alexandre de Moraes no caso, pois o mesmo foi designado como Ministro da Justiça assim que Temer assumiu e agora é um dos nomes fortes para o Supremo Tribunal Federal.

Já Silvonei, está muito bem trancafiado para não falar sobre o caso. Até mesmo seu advogado está receoso quanto à isso, afirmando que qualquer entrevista possa atrapalhar a defesa. Os jornais Folha e O Globo, que tentaram divulgar trechos da investigação, foram censurados.

O classificar como “hacker” foi exagero mas é inegável que Silvonei tinha informações relevantes que poderiam comprometer o hoje presidente do país. Mas nada como alguém que está tramando ser presidente ter um homem de confiança que possa silenciar alguém que tenham informações que possam comprometer essa trama.

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Boatos à respeito do filho de Lula chamam atenção aos casos, mas não em relação a ele

A população brasileira tem se mostrado muito suscetível a boatos e o campeão de alvo é o filho do ex-presidente Lula, apelidado pela própria imprensa de “Lulinha”. O que o tornou um bom alvo para boatos, além claro da falta de busca por informação de grande parte da população brasileira, é do fato dele ser filho de um ex-presidente, e o que é pior (para eles): um ex-presidente que antes de ser eleito era um metalúrgico, rompendo o paradigma de “pessoas certas que devem governar um país” criado pelo pensamento neoliberal.

O campeão com certeza é de que Lulinha é dono da Friboi, uma empresa que se tornou a número um em carnes. Não se sabe exatamente como esse boato começou mas é fato que a empresa teve um enorme crescimento nos últimos anos.  Isso se deve a um empréstimo de R$7,5 bilhões do BNDES (ou seja, din din público) para a empresa. O BNDES inclusive reconhece que tem participação no capital da empresa mas diante de todo a especulação criada pelo boato foi pedido uma auditoria à respeito desse contrato. O que é de se estranhar é o BNDES ter se recusado e pedido siglo a esses dados, mesmo que esteja envolvendo dinheiro público. O pedido foi recusado e o STF mandou o BNDES liberar os dados mas o caso não tem caminhado.

É de se estranhar também que a JBS, a empresa por trás da Friboi, foi a empresa que mais distribuiu dinheiro a partidos e candidatos nas eleições de 2014, não tendo ideologia partidária como parâmetro, sendo que o importante era botar dinheiro nas campanhas. Em troca de exatamente o que não sabemos, mas de onde iria sair o dinheiro para a Friboi já sabemos: do bolso dos trabalhadores.

Doações da JBS

Doações da JBS para cada partido nas eleições de 2014. Fonte: http://eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/08/10/campea-em-doacoes-friboi-virou-gigante-da-carne-com-r-10-bi-do-bndes.htm

Além da história da Friboi, outros dois boatos fortes que circularam envolvendo o filho de Lula foram à respeito de uma Fazenda milionária que ele comprou em Fortaleza e de um Avião Gulfstream adquirido por ele por U$ 50 milhões. A história envolvendo esses dois boatos são tão ridículas que não vou descrevê-las aqui, caso tenha interesse de ler sobre essas duas histórias veja aqui e aqui, respectivamente.

Falar sobre esses episódios é importante porque apesar de ser verdade que Lulinha se tornou um empresário bem sucedido mas NÃO UM BILIONÁRIO, como dizem, acho que reforça um pensamento que tenho de que nenhum negócio se torna tão grande se for totalmetne lícito. A Friboi se tornou uma grande empresa mas foi às custas de empréstimo do BNDES (que já falei muito sobre em outro texto desse blog), então mais uma vez vemos casos de “cases de sucesso” que deram certo por envolver dinheiro público, dinheiro de trabalhadores que não entendem de política, segundo os neoliberais. Apesar de Lula ter uma história pré-política respeitável e ter feito reformas sociais muito consideráveis, há de se questionar sua omissão diante desses casos.

 

Como a telecomunicação foi fatiada no Brasil

Na era das privatizações o Brasil perdeu grande parte de seu patrimônio, que aliás quem perdeu não foi o Estado, foram os Joãos, Marias, Josés, todos os brasileiros que pagam impostos. Foi assim que escreveu Aloysio Biondi em seu livro O Brasil Privatizado: um balanço do desmonte do Estado, escrito em 1999, logo após as privatizações. Nele, Aloysio conta que apesar de usar como argumento a falta de dinheiro para investimento nas estatais, as vendeu por muito menos que valia (o livro mostra isso em detalhes com números) e ainda emprestou dinheiro do BNDES para as empresas “favorecidas” realizarem o negócio.

Tive a curiosidade de comprar o livro para me informar mais sobre um assunto que certamente sabia que encontraria nele: como a telecomunicação foi fatiada no Brasil e praticamente entregue para iniciativa privada. Foi algo tão escrupuloso, só não chegou a ser pior do que a venda da Vale. O livro explica.

O governo, já planejando vender a Telebrás desde 1996, duplicou o investimento nelas, tendo desembolsado um total de 21 bilhões de reais dessa época até a privatização das teles. Todo esse investimento para ampliar as redes, instalações, cabos, toda a infraestrutura do sistema telefônico. Difícil imaginar tanto investimento num órgão público em tão pouco tempo, então porquê o fazer para “entregar” a um empresa privada?

Apesar de todo o investimento nas teles, o faturamente dos fabricantes brasileiros recuou, empresas foram fechadas e o desemprego avançou. A razão disso foi que as grandes multinacionais passaram a importar maciçamente. Alguns equipamentos de telefonia chegaram a ter 97% de peças importadas, algumas chegando a ter 100% das peças vindas do exterior, ou seja, os aparelhos viam para o país apenas para serem “montados”. O governo chegou a ter uma proposta inicial de que as multinacionais usassem pelo menos 35% de peças feitas no Brasil, mas chegando perto do dia do leilão, o governo simplesmente dispensou essa medida. Tanto que quando a Telefônica comprou a Telesp não convidou sequer uma empresa brasileira fabricante de peças para disputar as encomendas.

Outro ponto importante a se tocar: o preço do serviço. Antes da privatização o governo se preocupava em manter os preços mais baixos para os serviços utilizados pela maioria da população, tendo uma taxação maior nos serviços dos mais ricos para compensar os serviços de menor custo. Após a telecomunicação deixar de ser do povo foram eliminados esses subsídios fazendo com que as empresas privadas aumentassem o preço dos serviços, o que já era de esperar, visto a luta incessante de multinacionais privadas pelo lucro.

O falecido ministro Sérgio Motta previa que a privatização da Telebrás (em todo o país) renderia 35 bilhões de reais para o governo, mas foi feita uma consultoria INTERNACIONAL que acabou pedindo quase três vezes menos que isso, o equivalente a 11.2 bilhões. O governo deu a palavra que aceitaria esse valor mas houve uma grande manifestação popular, que depois de tanta rejeição o governo aceitou aumentar para… 13.5 bilhões, ainda muito abaixo do imaginado. No fim das contas as teles foram comparadas com ágil e renderam 22.2 bilhões, com uma entrada de 8.8 bilhões (40% de entrada, que ficou combinado). O curioso é que após a privatização o governo reconheceu que houveram “alguns erros de cálculo” feitos pela consultoria internacional, mas já era tarde.

Há mais. Graças ao descongelamento rápido das tarifas e à expansão do números de linhas e serviços trazidos por aqueles investimentos do governo, apresentou faturamentos e lucros crescentes, que continuaram a crescer nos anos seguintes. Todo esse investimento não entrou na conta do governo na hora de decidir o valor de venda, muito menos o patrimônio da empresa, tudo o que foi adquirido antes de 1996. O critério para decidir o preço consistiu apenas de faturamente que a empresa poderá ter nos próximos anos. O bizarro da conta é que, como a telecomunicação foi entregue a mais de uma empresa, o custo que eles deveriam ter com marketing para a concorrência foi levado em conta para desvalorizar o preço de venda. Simplesmente ridículo.

Além da Telebrás houve também a Embratel, com seus satélites, transmissões de longa distância, tendo comunicação do país com o resto do mundo. A Rede Globo chegou inclusive a querer comprá-la, mas a empresa de telecomunicação acabou ficando nas mãos de um consórcio de empresas dos Estados Unidos.

Foram levados a leilão então, a Telebrás e suas 12 empresas: três da telefonia fixa (Telesp, Brasil Telecom e Telemar), oito de telefonia celular (Telesp Celular, Tele Sudeste Celular, Telemig Celular, Telenordeste Celular, Tele Centro Oeste Celular, Tele Leste Celular e Tele Norte Celular) e uma telefonia de longa distância (Embratel).

mapa_brasilFatiamento da telecomunicação no Brasil: azul (Telefônica), vermelho (Banco Opportunity, Telecom Itália e fundos de pensão) e verde (AG Telecom).

Mas saber do que foi discorrido até aqui, não é de se estranhar que houve um escândalo. Através de grampos ilegais no BNDES foi descoberto que houve favorecimento ao Banco Opportunity no leilão da Tele Norte Leste, que culminou em algumas demissões, dentre elas a do então presidente do BNDES, André de Lara Resende (aquele mesmo que foi um dos convidados ao Roda Viva para criticar Thomas Piketty por propor uma melhor distribuição de renda). Lamentável que mesmo após isso tudo, dez anos depois a Justiça acabou absolvendo os acusados.

Após a telecomunicação já estar no controle de toda iniciativa privada surgiram novas teles, dentre elas as 4 grandes: Oi (em 2007, através da antiga Telemar), Vivo (em 2010, fusão da Portugal Telecom e Telefônica), Claro (em 2003, através de seis operadoras regionais) e TIM (em 1998 mas se consolidou em 2002, subsidiária da TIM Itália). Mais detalhes podem ser encontrados aqui.

Não é o foco detalhar as histórias dessas grandes companhias, suas respectivas páginas do Wikipédia já trazem um conteúdo interessante suficiente pra isso. O que importa aqui é no que essas empresas tem contribuído na telecomunicação brasileira. A resposta difícil é evidente para quem acompanha discussões à respeito nas ruas ou pela internet. Para ilustrar melhor o cenário, foi feita uma pesquisa que constatou que queixas contra teles na Anatel disparam 43,5% em 2015. Foi levado em conta as reclamações registradas no Procon.

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Além do enorme rombo provocado pelas privatizações o Brasil perdeu e muito com a piora de qualidade das teles, que não tem perspectiva de melhoras e a voz do povo não surte muito efeito para isso, porque como só tem essas companhias, acabamos ficando reféns e temos que ficar correndo pelo “menos pior”. Estudos do Fipe mostram que as linhas telefônicas ficaram 98% mais baratas mas isso é apenas uma estratégia, pois as tarifas subiram 512%, segundo o próprio Fipe, ou seja, elas te “entregam” o produto mas que só pode ser usado se pagar caras tarifas.

Reforço a recomendação para ler o livro de Aloysio Biondi. O usei como referência apenas para falar sobre as teles mas a sua leitura completa é essencial, mostrando como houve muita pouca revolta da população para algo tão escandaloso. Mas ainda não está perdido, devemos sempre fiscalizar os patrimônios públicos para que casos como esse não se repitam e o que está ruim não ficar pior. Transparência é essencial!

 

A falta de uma verdadeira anarquia num momento crucial no Brasil

Acabou o carnaval e como diz a piada (um tanto verdadeira): o ano está começando no Brasil. Está começando também para o Congresso brasileiro, onde acabou o seu “pequeno recesso”, fazendo voltar ao serviço os políticos de terno que ganham 10 vezes mais que um “trabalhador comum” e que podem se ausentar do trabalho sem que nada interfira para que seu salário seja creditado em sua conta bancária. São essas pessoas que deveriam representar o povo mas são os responsáveis por parar o país com uma briga interna que marcou 2015 e tem tudo pra dar prosseguimento nessa volta pós recesso.

O que me deixa surpresa em toda essa baixaria no Congresso é a passividade do povo brasileiro que infelizmente tem como tradição esperar demais pelo governo, o que ficou mais evidente com essa novela entre os parlamentares. Mas uma coisa marcante foi uma grande quantidade de protestos contra o governo, tendo como foco pedindo o impeachment de Dilma Rousset. Bravo! Estão protestando massivamente contra o governo. Esses protestos então tornam o país… anarquista? Infelizmente, muito pelo contrário.

A maior parte dos presentes nos protestos são pessoas de “classes altas”, ou de “classe média branca”, como foi dito pela BBC, muitos deles até eleitores de Aécio Neves, o adversário de Dilma nas eleições. Em alguns protestos chegaram até a fazer uma ridícula camisa com os dizeres ‘A culpa não é minha, eu votei em Aécio’, como se caso este fosse eleito iria tomar medidas e encontrar soluções mirabolantes para ser uma grande potência (no sentido capitalista).

Mas toda essa revolta contra o governo não resultou em nenhum movimento anarquista? Se me permitir a utilização de aspas, então posso dizer que sim, esse cenário brasileiro gerou um movimento “anarquista” no país. Utilizo as aspas porque foi um momento em que teve uma grande movimentação de pessoas ditas anarco-capitalistas, que apesar de ser um movimento contra o Estado não emprega nenhum outro conceito que esteja entre os pilares da anarquia: contra monopólio de autoridades e propriedades e uma sociedade igualitária. Anarco-capitalistas apenas querem o fim do Estado por este ser uma ferramenta que o impede de acumular riquezas excessivamente, só aí já fere o pilar de uma sociedade igualitária. Na minha opinião pessoal, os que se dizem anarco-capitalistas não são nada mais nada menos que neoliberalistas enrustidos. Eu poderia me alongar mais no tema, mas como me empolgo nas críticas a esse movimento pseudo-anárquico, fica a recomendação para esse ótimo vídeo que fala sobre o tema:

Mas voltemos às pessoas de terno do Congresso. Já reparou quanto tempo a cada dia gastamos lendo e pesquisando sobre política? É impossível acompanhar o trabalho de todos os deputados da Câmara e no Congresso, fora os juízes, os procuradores, … gastamos muito tempo pesquisando sobre as vidas deles para debatermos num grupo de conversa quem são os bons e quem são os ruins. Fazemos isso porque são eles que vão ser os considerados representantes do povo. Mas depois de meses lendo sobre algum candidato e ao julgar que este seja considerado um bom representante para o povo, vemos que ao ser eleito ele não faz muito do que esperávamos dele e acabamos nos decepcionando. Lá se vão os meses de estudos acompanhando a trajetória de uma pessoa para quando finalmente este assumir o posto de nos representar, simplesmente pensamos: “não era isso que esperávamos dele”.

Os fatores para isso são inúmeros, basta assistir House of Cards e ver, através de personagens fictícios, como acontecem as escolhas do poder legislativo e judiciário, e que apesar de alguns bem intencionados, acabam de mãos atadas. Falei de House of Cards porque foi o que veio à mente, mas tem muitas outras fontes que demonstrem esse cenário. Aliás, está aí outro grande problema: (muitos de) nós adoramos House of Cards pelo quão é revelador mas no limitamos a debater isso entre nossos grupos de conversa.

Além de muitas séries e filmes com personagens fictícios falando sobre isso, nosso acesso à informação atualmente está enorme, existem vários livros que falem sobre política no Brasil, muitos não necessariamente de política atual, mas que possam ter informações determinantes para compreender melhor o cenário político atual.

Mesmo com o compartilhamento de arquivos a milhão, as pessoas preferem utilizar duas péssimas ferramentas para formar opinião política: páginas do Facebook e vídeo blogs (ou simplesmente vlogs) no Youtube. Vale notar que ambos são de cunho conservador, como bem descreve duas ótimas reportagens da Agência Pública: A nova roupa de direita e A direita abraça a rede. Nesses textos percebe-se como o conservadorismo vem crescendo no Brasil, principalmente pelo público jovem, que ainda se prende à idéia de que um governo conservador resolveria os problemas do país, acabaria com a “baderna”.

Muitos desses jovens inclusive são totalmente favoráveis a idéias absurdas como privatização geral, como se deixar as coisas na mão do Estado fosse sinônimo de corrupção. O anarquismo tem isso como pensamento, mas não por essa vertente. Realmente privatizar tudo aparentemente daria a impressão de liberdade, por se livrar do Estado, mas imaginemos isso na situação que o Brasil está hoje, com esse enorme crescimento da onda conservadora, seria um desastre. Os cartéis iriam fazer a festa com a ausência de Estado.

No caso do Brasil o Estado vem atuando como agente regulador para melhorar a qualidade de vida das “classes menos favorecidas” aumentando a tributação sobre os ricos e investindo em programas sociais como o Bolsa Família. Claro que só com isso o governo não está maravilhoso pois o Estado continua sendo Estado. Para um bom anarquista essa frase basta mas esse é o ponto chave de tanta revolta conservadora no país: a tributação. Pessoas que costumavam fazer suas riquezas explorando o homem estão tendo mais dificuldades com as medidas sociais do governo, então por conta dessa exploração vemos que a revolta contra o governo nada tem de anarquista.

Com esse pequeno destrinchamento da situação político-social brasileira devo dizer que o Brasil está perdendo uma chance de ouro de fazer crescer um movimento anarquista no país. Toda essa crise no Congresso está deixando evidente que ninguém está lá para servir o povo e nosso suor está pagando o salário deles. Isso deveria ser o suficiente para aflorar a revolta do cidadão e nos unirmos para acabarmos com os que tiram nossa liberdade. Afinal, digam se uma cena dessa não é emocionante?

Sempre me emociona ver essa cena e sempre me entristece quando percebo o tempo que perco na minha vida lendo sobre política.

PS: Leiam (muito) sobre anarquismo! Aqui tem um pacote com 445 livros em português sobre anarquismo e áreas afins: https://livrosanarquistas.wordpress.com/2013/06/26/livros-e-artigos-anarquistas-e-afins/

Revisado em 07/09/2017