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O uso político cada vez maior de bots

Os programas que agem de maneira autônoma, chamados de bots, sempre foram muito usados para facilitar a vida de pessoas em alguns tarefas, por vezes automatizando tarefas repetitivas para melhorar a produtividade. Seu uso começou a ser questionado quando se tornou ferramenta essencial para ataques de negação de serviço, tornando o serviço distribuído, amplificando o ataque. Mas os bots tem sido usados cada vez como em outro meio: como ferramenta de campanha eleitoral.

A idéia de seu uso vem ao observar dados estatísticos que mostram o quanto de tempo as pessoas passam utilizando redes sociais. O Brasil inclusive lidera o ranking mundial nesse quesito. A partir disso, os partidos decidiram apostar em uma estratégia diferente e ao invés da tradiocional entrega de santinhos e carros de som com propagandas irritantes, decidiram tentar atingir as pessoas num local onde passam a maior parte do seu dia.

No debate presidencial de 2014, muitos bots foram usados tanto pelos canidatos do primeiro turno, quanto pelos dois que disputaram o segundo turno. O PSDB chegou a investir R$10 milhões nesse tipo de propaganda, enquanto que o investimento exato do PT não é conhecido, mas sabe-se que foi muito abaixo do que foi investido pelo partido adversário. Esse número se reflete no alcance, onde o PSDB conseguia alcançar 80 milhões de pessoas e o PT, 22 milhões.

Apesar de ter investido mais em bots, o PSDB não ganhou a corrida presidencial nesse ano. Após a eleição seus bots foram usados pelos grupos “Revoltados On-Line” e “Vem pra Rua”, que resolveram aproveitar o dinheiro investido para uma nova estratégia: promover propaganda para derrubar a presidente que venceu a eleição.

As manifestações pelo impeachmet da presidente petista também eram bem movimentados nas redes sociais e os bots tiveram seu papel para ajudar a promover tanto apoio quanto o desejo de que ela deixasse o poder, que no fim foi o que acabou acontecendo.

Não só durante as manifestações que ocorriam enquanto Dilma estava no poder, mas atualmente os bots ainda vem exercendo seu papel nas redes, seja compartilhando mensagens ou promovendo hashtags, já que um dado que vem servindo de parâmetro ultimamente sobre o sucesso ou não de um determinado evento é a quantidade de vezes em que a hashtag foi usada.

Esse cenário não é exclusividade da política brasileira. Angela Merkel demonstrou preocupação com os bots na eleição de 2017 na Alemanha. Durante as eleições na França houve um vazamento de e-mails de Emmanuel Macron e bots foram usados para ajudar a espalhar as informações e fazer com que elas chegassem aos Trending Topics do Twitter. Eles ajudaram a influenciar o resultado da eleição presidencial nos EUA com as notícias espalhadas e já é de conhecimento que na Rússia 45% da atividade no Twitter são de contas automáticas do governo.

Houve até um experimento iniciado em 2011 onde pesquisadores da UFMG criaram dois bots de Twitter, um que apenas seguia pessoas mas não interagia com eles e outro que tweetava e retweetava baseado em algoritmos pré-determinados. O estudo rendeu um artigo científico que pode ser lido aqui.

Mas não é apenas do lado dos partidos políticos em que os bots podem ser usados. Um grupo de oito desenvolvedores de software arrecadaram fundos através de financiamento coletivo e deram início ao Projeto Serenata do Amor. Nesse projeto foi construído um bot para monitorar gastos de deputados utilizando benefícios com comidas, passagens de avião e combustível. Em apenas três meses foram detectados 3500 casos suspeitos e chegarem a fazer deputados reembolsarem os valores considerados ilegais em alguns casos.

Grande parte do conteúdo publicado aqui foi baseado num artigo publicado por Dan Arnaudo, da Universidade de Washington. Recomendo a leitura completa do estudo realizado pois é bem interessante  e traz um cenário que provavelmente será visto nas próximas eleições brasileiras.

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Como a telecomunicação foi fatiada no Brasil

Na era das privatizações o Brasil perdeu grande parte de seu patrimônio, que aliás quem perdeu não foi o Estado, foram os Joãos, Marias, Josés, todos os brasileiros que pagam impostos. Foi assim que escreveu Aloysio Biondi em seu livro O Brasil Privatizado: um balanço do desmonte do Estado, escrito em 1999, logo após as privatizações. Nele, Aloysio conta que apesar de usar como argumento a falta de dinheiro para investimento nas estatais, elas foram vendidas por muito menos que do valiam (o livro mostra isso em detalhes com números) e ainda emprestou dinheiro do BNDES para as empresas “favorecidas” realizarem o negócio.

Tive a curiosidade de comprar o livro para me informar mais sobre um assunto que certamente sabia que encontraria nele: como a telecomunicação foi fatiada no Brasil e praticamente entregue para iniciativa privada. Foi algo tão escrupuloso! Só não chegou a ser pior do que a venda da Vale. O livro explica.

O governo, já planejando vender a Telebrás desde 1996, duplicou o investimento nelas, tendo desembolsado um total de 21 bilhões de reais dessa época até a privatização das teles. Todo esse investimento para ampliar as redes, instalações, cabos, toda a infraestrutura do sistema telefônico. Difícil imaginar tanto investimento num órgão público em tão pouco tempo, então porquê o fazer para “entregar” a um empresa privada?

Apesar de todo o investimento nas teles, o faturamente dos fabricantes brasileiros recuou, empresas foram fechadas e o desemprego avançou. A razão disso foi que as grandes multinacionais passaram a importar maciçamente. Alguns equipamentos de telefonia chegaram a ter 97% de peças importadas, algumas chegando a ter 100% das peças vindas do exterior, ou seja, os aparelhos viam para o país apenas para serem “montados”. O governo chegou a ter uma proposta inicial de que as multinacionais usassem pelo menos 35% de peças feitas no Brasil, mas chegando perto do dia do leilão, o governo simplesmente dispensou essa medida. Tanto que quando a Telefônica comprou a Telesp não convidou sequer uma empresa brasileira fabricante de peças para disputar as encomendas.

Outro ponto importante a se tocar: o preço do serviço. Antes da privatização o governo se preocupava em manter os preços mais baixos para os serviços utilizados pela maioria da população, tendo uma taxação maior nos serviços dos mais ricos para compensar os serviços de menor custo. Após a telecomunicação deixar de ser do povo foram eliminados esses subsídios fazendo com que as empresas privadas aumentassem o preço dos serviços, o que já era de esperar, vista a luta incessante de multinacionais privadas pelo lucro.

O falecido ministro Sérgio Motta previa que a privatização da Telebrás (em todo o país) renderia 35 bilhões de reais para o governo, mas foi feita uma consultoria INTERNACIONAL que acabou pedindo quase três vezes menos que isso, o equivalente a 11.2 bilhões. O governo deu a palavra que aceitaria esse valor mas houve uma grande manifestação popular, que depois de tanta rejeição o governo aceitou aumentar para… 13.5 bilhões, ainda muito abaixo do imaginado. No fim das contas as teles foram comparadas com ágil e renderam 22.2 bilhões, com uma entrada de 8.8 bilhões (40% de entrada, que ficou combinado). O curioso é que após a privatização o governo reconheceu que houveram “alguns erros de cálculo” feitos pela consultoria internacional, mas já era tarde.

Há mais. Graças ao descongelamento rápido das tarifas e à expansão do números de linhas e serviços trazidos por aqueles investimentos do governo, apresentou faturamentos e lucros crescentes, que continuaram a crescer nos anos seguintes. Todo esse investimento não entrou na conta do governo na hora de decidir o valor de venda, muito menos o patrimônio da empresa, tudo o que foi adquirido antes de 1996. O critério para decidir o preço consistiu apenas de faturamente que a empresa poderá ter nos próximos anos. O bizarro da conta é que, como a telecomunicação foi entregue a mais de uma empresa, o custo que eles deveriam ter com marketing para a concorrência foi levado em conta para desvalorizar o preço de venda. Simplesmente ridículo.

Além da Telebrás houve também a Embratel, com seus satélites, transmissões de longa distância, tendo comunicação do país com o resto do mundo. A Rede Globo chegou inclusive a querer comprá-la, mas a empresa de telecomunicação acabou ficando nas mãos de um consórcio de empresas dos Estados Unidos.

Foram levados a leilão então a Telebrás e suas 12 empresas: três da telefonia fixa (Telesp, Brasil Telecom e Telemar), oito de telefonia celular (Telesp Celular, Tele Sudeste Celular, Telemig Celular, Telenordeste Celular, Tele Centro Oeste Celular, Tele Leste Celular e Tele Norte Celular) e uma telefonia de longa distância (Embratel).

mapa_brasilFatiamento da telecomunicação no Brasil: azul (Telefônica), vermelho (Banco Opportunity, Telecom Itália e fundos de pensão) e verde (AG Telecom).

Mas saber do que foi discorrido até aqui, não é de se estranhar que houve um escândalo. Através de grampos ilegais no BNDES foi descoberto que houve favorecimento ao Banco Opportunity no leilão da Tele Norte Leste, que culminou em algumas demissões, dentre elas a do então presidente do BNDES, André de Lara Resende (aquele mesmo que foi um dos convidados ao Roda Viva para criticar Thomas Piketty por propor uma melhor distribuição de renda). Lamentável que mesmo após isso tudo, dez anos depois a Justiça acabou absolvendo os acusados.

Após a telecomunicação já estar no controle de toda iniciativa privada surgiram novas teles, dentre elas as 4 grandes: Oi (em 2007, através da antiga Telemar), Vivo (em 2010, fusão da Portugal Telecom e Telefônica), Claro (em 2003, através de seis operadoras regionais) e TIM (em 1998 mas se consolidou em 2002, subsidiária da TIM Itália). Mais detalhes podem ser encontrados aqui.

Não é o foco detalhar as histórias dessas grandes companhias, suas respectivas páginas do Wikipédia já trazem um conteúdo interessante suficiente pra isso. O que importa aqui é no que essas empresas tem contribuído na telecomunicação brasileira. A resposta difícil é evidente para quem acompanha discussões à respeito nas ruas ou pela internet. Para ilustrar melhor o cenário, foi feita uma pesquisa que constatou que queixas contra teles na Anatel disparam 43,5% em 2015. Foram levadas em conta as reclamações registradas no Procon.

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Além do enorme rombo provocado pelas privatizações o Brasil perdeu e muito com a piora de qualidade das teles, que não tem perspectiva de melhoras e a voz do povo não surte muito efeito para isso, porque como só tem essas companhias, acabamos ficando reféns e temos que ficar correndo pelo “menos pior”. Estudos do Fipe mostram que as linhas telefônicas ficaram 98% mais baratas mas isso é apenas uma estratégia, pois as tarifas subiram 512%, segundo o próprio Fipe, ou seja, elas te “entregam” o produto mas que só pode ser usado se pagar caras tarifas.

Reforço a recomendação para ler o livro de Aloysio Biondi. O usei como referência apenas para falar sobre as teles mas a sua leitura completa é essencial, mostrando como houve muita pouca revolta da população para algo tão escandaloso. Mas ainda não está perdido, devemos sempre fiscalizar os patrimônios públicos para que casos como esse não se repitam e o que está ruim não ficar pior. Transparência é essencial!

Revisado em 09/11/2017

A falta de uma verdadeira anarquia num momento crucial no Brasil

Acabou o carnaval e como diz a piada (um tanto verdadeira): o ano está começando no Brasil. Está começando também para o Congresso brasileiro, onde acabou o seu “pequeno recesso”, fazendo voltar ao serviço os políticos de terno que ganham 10 vezes mais que um “trabalhador comum” e que podem se ausentar do trabalho sem que nada interfira para que seu salário seja creditado em sua conta bancária. São essas pessoas que deveriam representar o povo mas são os responsáveis por parar o país com uma briga interna que marcou 2015 e tem tudo pra dar prosseguimento nessa volta pós recesso.

O que me deixa surpresa em toda essa baixaria no Congresso é a passividade do povo brasileiro que infelizmente tem como tradição esperar demais pelo governo, o que ficou mais evidente com essa novela entre os parlamentares. Mas uma coisa marcante foi uma grande quantidade de protestos contra o governo, tendo como foco pedindo o impeachment de Dilma Rousset. Bravo! Estão protestando massivamente contra o governo. Esses protestos então tornam o país… anarquista? Infelizmente, muito pelo contrário.

A maior parte dos presentes nos protestos são pessoas de “classes altas”, ou de “classe média branca”, como foi dito pela BBC, muitos deles até eleitores de Aécio Neves, o adversário de Dilma nas eleições. Em alguns protestos chegaram até a fazer uma ridícula camisa com os dizeres ‘A culpa não é minha, eu votei em Aécio’, como se caso este fosse eleito iria tomar medidas e encontrar soluções mirabolantes para ser uma grande potência (no sentido capitalista).

Mas toda essa revolta contra o governo não resultou em nenhum movimento anarquista? Se me permitir a utilização de aspas, então posso dizer que sim, esse cenário brasileiro gerou um movimento “anarquista” no país. Utilizo as aspas porque foi um momento em que teve uma grande movimentação de pessoas ditas anarco-capitalistas, que apesar de ser um movimento contra o Estado não emprega nenhum outro conceito que esteja entre os pilares da anarquia: contra monopólio de autoridades e propriedades e uma sociedade igualitária. Anarco-capitalistas apenas querem o fim do Estado por este ser uma ferramenta que o impede de acumular riquezas excessivamente, só aí já fere o pilar de uma sociedade igualitária. Na minha opinião pessoal, os que se dizem anarco-capitalistas não são nada mais nada menos que neoliberalistas enrustidos. Eu poderia me alongar mais no tema, mas como me empolgo nas críticas a esse movimento pseudo-anárquico, fica a recomendação para esse ótimo vídeo que fala sobre o tema:

Mas voltemos às pessoas de terno do Congresso. Já reparou quanto tempo a cada dia gastamos lendo e pesquisando sobre política? É impossível acompanhar o trabalho de todos os deputados da Câmara e no Congresso, fora os juízes, os procuradores, … gastamos muito tempo pesquisando sobre as vidas deles para debatermos num grupo de conversa quem são os bons e quem são os ruins. Fazemos isso porque são eles que vão ser os considerados representantes do povo. Mas depois de meses lendo sobre algum candidato e ao julgar que este seja considerado um bom representante para o povo, vemos que ao ser eleito ele não faz muito do que esperávamos dele e acabamos nos decepcionando. Lá se vão os meses de estudos acompanhando a trajetória de uma pessoa para quando finalmente este assumir o posto de nos representar, simplesmente pensamos: “não era isso que esperávamos dele”.

Os fatores para isso são inúmeros, basta assistir House of Cards e ver, através de personagens fictícios, como acontecem as escolhas do poder legislativo e judiciário, e que apesar de alguns bem intencionados, acabam de mãos atadas. Falei de House of Cards porque foi o que veio à mente, mas tem muitas outras fontes que demonstrem esse cenário. Aliás, está aí outro grande problema: (muitos de) nós adoramos House of Cards pelo quão é revelador mas no limitamos a debater isso entre nossos grupos de conversa.

Além de muitas séries e filmes com personagens fictícios falando sobre isso, nosso acesso à informação atualmente está enorme, existem vários livros que falem sobre política no Brasil, muitos não necessariamente de política atual, mas que possam ter informações determinantes para compreender melhor o cenário político atual.

Mesmo com o compartilhamento de arquivos a milhão, as pessoas preferem utilizar duas péssimas ferramentas para formar opinião política: páginas do Facebook e vídeo blogs (ou simplesmente vlogs) no Youtube. Vale notar que ambos são de cunho conservador, como bem descreve duas ótimas reportagens da Agência Pública: A nova roupa de direita e A direita abraça a rede. Nesses textos percebe-se como o conservadorismo vem crescendo no Brasil, principalmente pelo público jovem, que ainda se prende à idéia de que um governo conservador resolveria os problemas do país, acabaria com a “baderna”.

Muitos desses jovens inclusive são totalmente favoráveis a idéias absurdas como privatização geral, como se deixar as coisas na mão do Estado fosse sinônimo de corrupção. O anarquismo tem isso como pensamento, mas não por essa vertente. Realmente privatizar tudo aparentemente daria a impressão de liberdade, por se livrar do Estado, mas imaginemos isso na situação que o Brasil está hoje, com esse enorme crescimento da onda conservadora, seria um desastre. Os cartéis iriam fazer a festa com a ausência de Estado.

No caso do Brasil o Estado vem atuando como agente regulador para melhorar a qualidade de vida das “classes menos favorecidas” aumentando a tributação sobre os ricos e investindo em programas sociais como o Bolsa Família. Claro que só com isso o governo não está maravilhoso pois o Estado continua sendo Estado. Para um bom anarquista essa frase basta mas esse é o ponto chave de tanta revolta conservadora no país: a tributação. Pessoas que costumavam fazer suas riquezas explorando o homem estão tendo mais dificuldades com as medidas sociais do governo, então por conta dessa exploração vemos que a revolta contra o governo nada tem de anarquista.

Com esse pequeno destrinchamento da situação político-social brasileira devo dizer que o Brasil está perdendo uma chance de ouro de fazer crescer um movimento anarquista no país. Toda essa crise no Congresso está deixando evidente que ninguém está lá para servir o povo e nosso suor está pagando o salário deles. Isso deveria ser o suficiente para aflorar a revolta do cidadão e nos unirmos para acabarmos com os que tiram nossa liberdade. Afinal, digam se uma cena dessa não é emocionante?

Sempre me emociona ver essa cena e sempre me entristece quando percebo o tempo que perco na minha vida lendo sobre política.

PS: Leiam (muito) sobre anarquismo! Aqui tem um pacote com 445 livros em português sobre anarquismo e áreas afins: https://livrosanarquistas.wordpress.com/2013/06/26/livros-e-artigos-anarquistas-e-afins/

Revisado em 07/09/2017

O que você preferia que o Brasil tivesse recebido em 2014, uma Copa do Mundo ou Snowden?

Um fato importante marcou 5 de fevereiro de 2016, o Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária da ONU reconheceu que a “prisão” de Julian Assange na embaixada do Equador no Reino Unido é ilegal. Uma procuradora sueca tentava levar Assange para a Suécia para ser julgado sobre um caso com acusações contestáveis de abuso sexual praticado pelo fundador do Wikileaks, insistência essa também contestada pois a Suécia já havia recolhido mais de 40 depoimentos no Reino Unido em outros casos, segundo o Deutsche Welle.

Tanto o Reino Unido quanto a Suécia negaram que Assange tenha sido privado de sua liberdade e que ele entrou na embaixada do Equador voluntariamente. Declaração curiosa, pois não foi dada nenhuma explicação do porquê policiais passarem o dia rondando a embaixada e que isso tenha tido um custo de £10m (din din público).

Ao falar sobre embaixada me fez lembrar um caso que teve no Brasil, mas antes de falar sobre isso vamos voltar ainda mais. Vamos para 2007. Nesse ano o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014. Apesar de eu ser um grande fã de futebol sempre fui contra que o Brasil a sediasse. Copa do Mundo não é o maior evento futebolístico do mundo, é falcatrua, apenas para deixar os “responsáveis pelo futebol” mais ricos. A escolha das sedes das Copas é algo estrategicamente planejado para não levantar suspeitas da movimentação financeira envolvendo a organização do evento que ocorrerá nesse período.

Agora caminhemos dessa data até junho de 2013. Após todos esses meses de preparação para a Copa e muito dinheiro público envolvido, a situação do país não ia bem, fazendo com que a população começasse a se questionar: “por que tanto dinheiro está indo facilmente para infraestrutura da Copa e os preços estão aumentando?”. A gota d’água foi o aumento da passagem de ônibus nesse mês, que indignou de vez a população e grandes revoltas começaram a acontecer. Paralelamente a isso, outro fato importante aconteceu: Edward Snowden ganharia fama mundial por vazar documentos da NSA e tinha muita coisa envolvendo o Brasil, relevando que o país estava sendo espionado.

Além da ajuda de Snowden ao Brasil, ao revelar esses documentos, ele quis ajudar ainda mais, ele ofereceu ajudar o país colaborando com as investigações sobre as ações da NSA em troca de asilo político. Foi um assunto bastante debatido na época. Veja o vídeo abaixo da reportagem da TV Brasil.

O que é dito durante a reportagem é interessante: “por que o Brasil não daria asilo a Snowden se deu a Cesare Battisti?”. Este que foi acusado de assassinato, enquanto Snowden “apenas” vazou documentos secretos. A comparação entre os dois ainda pode ser feita por o Brasil ter recusado o asilo a Snowden por ‘ele não ter feito nenhum pedido formal de asilo‘ mas não lembro de Battisti ter feito tal pedido quando lhe foi concedido asilo. Realmente, essa recusa ainda é uma incógnita.

Passou a Copa, a seleção de futebol foi humilhada em sua própria casa e isso ainda foi pouco se levar em conta os gastos exagerados. Todos os estádios tiveram superfaturamento.

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Fonte: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/04/27/previsao-oficial-de-custo-dos-estadios-da-copa-ja-subiu-r-992-mi-dinheiro-publico-vai-pagar-97.htm

Após ter passado esses dois acontecimentos paralelos, fica a pergunta: o que você preferia ter recebido em junho de 2014, uma Copa do Mundo ou Edward Snowden?

Revisado em 07/09/2017

Devemos confiar em Ciro Gomes?

Enquanto o Congresso brasileiro fica na sua briga interna entre a oposição, querendo derrubar a presidente, e a situação, querendo derrubar o presidente da Câmara, em uma batalha de egos que só vem atrasando o desenvolvimento do país, que já quase não dá muitos passos, um personagem fora do Congresso ganha destaque por fazer discursos de alguém que parece estar muito bem situado dos problemas do Brasil. Discursos que além de mostrar essa visão, mostra solução para esses problemas, coisas que poucas vezes vemos sendo proferidas por pessoas de terno dentro do Congresso.

Ciro Gomes mostra que está bem situado do plano da oposição aos ataques aos partidos aliados à presidente, reconhecendo que muitas medidas da oposição são equivocadas e talvez nem precisem ser mais  tão bem elaboradas pois a população vem engolindo qualquer história que fale mal do atual governo. Isso pode ser bem percebido nos nível de reprovação levantados em pesquisas.

Ele mostra também que está percebendo os equívocos do governo mas com a diferença que vem sempre mostrando possíveis soluções para esses problemas atuais do governo. Exatamente o que o povo quer ouvir.

Mas o que traz Ciro Gomes de volta à tona, após ficar recluso de campanhas políticas? Ele que não se candidatou em 2010 nem fez parte de nenhuma aliança, ficando afastado da vida política até 2015, quando se tornou Secretário Estadual de Saúde do Ceará. E parece ter voltado no momento certo, pois a população não acredita mais em nenhum dos partidos que estão nos holofotes. Estão todos desacreditados e Ciro Gomes parece estar querendo aproveitar esse momento.

Logo ele que começou sua carreira política no PDS, o sucessor da Arena (partido da ditadura), em 1980. 3 anos depois foi para o PMDB e em 1988 fundou o PSDB, onde permaneceu até 1996 quando resolveu ir para o PPS, o antigo Partido Comunista Brasileiro (meio contraditório pra quem começou a carreira num partido cujos membros mandavam torturar quem defendia as causas do seu então atual partido).

Depois disso, esteve longe de tentar disputas governamentais e presidenciais e passou tempos em reclusão e agora, ao que parece, escolheu o momento certo para voltar a dar as caras. Após tantas entrevistas com diálogos bastante coerentes (destaque ao que ele deixa o economista neoliberalista Rodrigo Constantino sem argumentos nas discussões), todas elas disponíveis no Youtube.

Quem vinha acompanhando as ações e os discursos de Ciro Gomes já deve ter imaginado qual era a principal intenção dele: ser candidato a presidência, que já tentou por duas vezes. Em 22 de Janeiro ele confirmou sua intenção. Agora devemos ficar atentos para saber qual a verdadeira razão para o aparecimento de Ciro nesse momento: de alguém que já está a muito tempo na política e decidiu “arrumar a casa” ou se é simplesmente de alguém que finalmente viu uma eleição presidenciável one ele tenha reais condições de vencer.

É preciso ficar atento a essa tipo de coisa. Na política os episódios são sempre os mesmos, só muda os personagens.

Revisado em 07/09/2017