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Segurança Nacional: um filme que mostra o sonho antigo de militarizar o Brasil

Filmes de ação dos Estados Unidos, quanta gente gosta desse tipo de filme! Um exército ou uma agência secreta e um personagem principal que está à frente de todos e é venerado por toda a agência. Filmes esses que são comuns em terras ianques, que tem um exército ostensivo desde muito tempo por estar constantemente envolvido em guerras, ou em atuação de agências de inteligência por combater ameaças internas ocasionadas pelas guerras e conflitos que o país cria ou se envolve.

Não é de imaginar que vejamos esse tipo de roteiro em um filme brasileiro. Pois não foi isso que pensou Roberto Carminati, um diretor que já tinha no currículo a produção de algumas novelas na Globo. Ele teve a pretensão de misturar um filme de ação típico dos Estados Unidos em um cenário brasileiro.

O filme tem um roteiro fictício onde a Força Aérea Brasileira (FAB) monitorando constantemente a Amazônia para evitar que ela sirva de ponto de entrega de drogas vindas de países vizinhos. A FAB faz uso do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) para monitorar as ações na região.

Além da FAB, há um enorme envolvimento da ABIN, a Agência Brasileira de Inteligência, que como nos filmes estado-unidenses possui um personagem central. O diretor escolheu Thiago Lacerda para o posto, de forma a querer torná-lo o galã que combate criminosos e salva o país.

Enquanto se assiste ao filme é possível notar um pouco de semelhança com o filme True Lies, onde Schwarzenegger é um agente secreto e esconde o serviço da própria família para combater traficante de drogas. O mesmo ocorre em Segurança Nacional, onde Lacerda é um agente secreto e para isso precisa esconder a vida de sua namorada enquanto protege o país de traficantes.

Além de tentar transformar Lacerda em um Schwarzenegger, Carminatti ainda tenta passar com exaustão a importância dos serviços militares no combate à invasão de alguma ameaça externa. Tanto que o filme teve apoio da FAB e do governo brasileiro.

Não é à toa que Carminatti nasceu nos EUA, se formou em cinema por lá e disse ter estudado “como o cinema americano fala das Forças Armadas e de sua história de um jeito positivo”.  Ainda enfatizou que sempre almejou voltar ao Brasil para fazer filmes positivos. Eis então que surgiu Segurança Nacional.

Não tentarei dar uma de crítico de cinema analisando o filme mas ele não foi muito bem recebido. Além do roteiro não ser muito empolgante e as atuações dos atores ficarem devendo, ainda traz uma visão “estado-unidense” do Brasil. Só faltou chamar de Estados Unidos do Brasil.

O filme foi feito em 2010 e demonstrou, mesmo que nesse caso, pessoal, uma idéia de militarizar o Brasil, um país que não se envolve em guerras nem se mete em conflitos entre outros países. O que se percebe é que desde que Dilma Roussef sofreu o impeachment tem-se percebido uma vontade de militarizar o país.

Uma notícia recente em que é possível pegar o gancho com esse filme seria de que o exército dos EUA foi convidado pelo brasileiro a participar de um exército na Amazônia. Teremos soldados americanos por aqui fazendo simulações militares, pelo menos segundo o nosso Exército.

Alguns acreditam que esse acordo possa significar uma aproximação entre os países que possa estreitar a relação militar entre ambos. Se verdade, seria algo realmente perigoso pela quantidade de guerras que os EUA já se envolvem normalmente, imaginem com esse louco na presidência.

A superlotação das cadeias brasileiras pela Lei de Drogas e como o Silk Road melhorou os dados nos EUA

O massacre dos detentos em Manaus, e dias depois em Roraima, chamaram a atenção do país e principalmente do governo, que possuía um rascunho do que pretendiam ser o Plano Nacional de Segurança Pública. Após o episódio foi decidido em caráter de urgência o lançamento do plano, que possui como metas a reduções anual de homicídios e de superlotação nos presídios, aumentos de celeridade nas investigações e de quantidade de drogas apreendidas, assom como ter informações em tempo real de todo sistema penitenciário.

O problema desse plano, além de 78% dele já ter medidas adotadas pelas gestões dos presidentes anteriores, são alguns pontos que vem sendo criticados por especialistas. Um desses pontos é o de que os planos de segurança anteriores foram lançados da mesma forma, em questões emergenciais, sem ter um planejamento detalhado e com discussão à respeito de seus pontos.

Tanto que Juana Kweitel da ONG Conectas Direitos Humanos alerta para um ponto importante: a de que a superlotação das cadeias está ligada à Lei de Drogas.

Essa lei foi lançada em 2006 como Lei 11.343 e é criticada por ter endurecido penas para traficantes e ter as abrandado para usuários comuns. O assunto foi tratado no 27º relatório global da Human Rights Watch, que mostra que de 2005 a 2014 houve um crescimento de 19% dos presos que haviam sido detidos por crimes relacionados a drogas.

Conforme disse a diretora no Brasil da HRW, Maria Laura Canineu, “a lei deixou uma subjetividade grande na determinação de quem é traficante ou usuário”. A partir dessa afirmação, a ONG considera que a Lei de Drogas é o ‘fator chave’ para aumento da população carcerária.

Já nos EUA, um país acostumado a guerras, além de seus conflitos de política externa, há uma grande interna: a guerra contra as drogas. Inicialmente ignorada no início do século XX, hoje em dia o combate às drogas está inclusive no plano internacional do país.

Claro que há controvérsias quanto a essa guerra, inclusive questionamentos à respeito de se os EUA realmente querem vencê-la. Em todo histórico do combate ao tráfico há inclusive alianças do governo com poderosos cartéis.

Isso leva a uma relação curiosa ao episódio envolvendo o Silk Road, o famoso site de venda de drogas que foi fechado em maio de 2015 pelo FBI e reaberto meses depois sob o nome de Silk Road 2.0. Por trás desse mercado negro online de drogas estava alguém que se intitulava “Dread Pirate Roberts”, que futuramente foi descoberto que se tratava de Ross Ulbricht, que foi julgado e condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

O episódio do Silk Road se tornou curioso pelo fato do site, apesar de ser considerado ilegal e ter sido fechado pelo FBI, foi responsável por diminuição de violência no combate às drogas. Um estudo afirmou que como a violência nesse meio é gerada através de aumento de território, confrontos com policiais e acerto de dívidas, o fato de ter um mercado virtual que controla as vendas (mesmo que seus compradores sejam anônimos), evita que haja qualquer tipo de violência.

Assim como prender um famoso traficante de drogas não é garantia que o tráfico de drogas irá diminuir, o fechamento do Silk Road não impediu que drogas continuassem a ser comercializadas na chamada darknet. A venda apenas se distribuiu entre outras lojas conforme mostrado no gráfico abaixo.

silkroad

Fonte: http://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2015/05/daily-chart-13

A história do Silk Road e de Ross Ulbricht, assim como mais informações à respeito da queda de violência ocasionada pelo site podem ser vistas no documentário Deep Web.

Aprovar uma lei de drogas que apenas aumenta a punição e enquadra mais pessoas ao perfil que possa ser punido, como a lei brasileira, ou combater o tráfico de forma intensiva por anos, como nos EUA, não são soluções para resolver a questão. No Brasil foi comprovado que apenas prender só fez aumentar a população carcerária e deu no que deu.

É preciso procurar formas para que se vença o tráfico inserindo os traficantes na sociedade para que ganhem dinheiro de forma digna, sem precisar estar criando uma guerra. Algo que pode ajudar nisso é a legalização da maconha, algo que já foi defendido pelo ex-presidente FHC e já há um projeto protocolado pelo deputado Jean Wyllys.