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Nem vídeo games deixam de ser alvo de espionagem

Com toda essa jogatina nos EUA, em 2010 foi constatado que os cidadãos estado-unidenses jogam em média 13 horas por semana. Porém a tendência foi que esse número crescesse , pois essa pesquisa apenas contemplou jogos de PC e console e foi justamente a partir desse ano que começou a popularização dos smartphones.

O fato foi confirmado em uma pesquisa que constatou que as pessoas que residem nos EUA passam em média 2 horas e 38 minutos por dia em smartphones, o que corresponde a mais ou menos 19 horas por semana. Essa mesma pesquisa revelou que dentre o tempo em que as pessoas passam usando smartphones, a maior parte deles é jogando (32%), tempo maior até do que usando Facebook (18%).

Com esses dados em mente, não é difícil entender porque jogos eletrônicos passaram a ser considerados um cenário importante a ser espionado. Com isso, nossas horas de lazer passaram a ser alvo do big brother governamental.

Fato esse que foi comprovado dentre os documentos vazados por Snowden. Neles há a confirmação de que agentes estavam se infiltrando em jogos populares como World of Warcraft afim de observar o comportamento dos jogadores e coletar dados sobre eles. A “ameaça” foi até registrada oficialmente em um documento intitulado Exploiting Terrorist Use of Games & Virtual Environments.

Com a evolução de consoles, os mais populares hoje em dia (PlayStation, Xbox e Nintendo Wii) utilizam conexão com a internet para seus jogos.

O Xbox tem vários recursos que podem ser explorados para vigilância. A Microsoft apostou numa nova abordagem, através do Kinect, para, através de uma câmera, captar os movimentos das pessoas e reproduzir esse movimento nos jogos, substituindo o joystick. Além disso, há vários funcionalidades que utilizam comandos de voz.

Quando membros do ISIS atacaram Paris em novembro de 2015, houve uma suspeita de que eles tenham usado o PlayStation Network (PSN) para combinar o ataque. O chat do PlayStation 4 possui criptografia e é difícil de ter acesso às informações, até mesmo para a NSA.

Além de jogos de PC e console, um jogo que fez enorme sucesso assim que começaram a surgir os jogos para smartphone foi Angry Birds. Esse com certeza não poderia estar de fora dos planos de espionagem da NSA. No momento em que um aplicativo de celular é baixado, tanto no Android quanto no iOS, há uma advertência de quais informações do celular serão compartilhadas e quais autorizações no sistema o aplicativo poderá fazer mas a ânsia em desfrutar do jogo muitas vezes faz o usuário não se atentar a isso.

Os dados compartilhados no jogo eram direcionados para propagandas, de onde a Rovio, empresa fundadora do jogo, levantava seus fundos. A agência de espionagem se aproveitou disso para armazenar informação dos usuários que jogavam Angry Birds, que não eram poucos. As informações eram coletadas a partir das propagandas que apareciam durante o jogo. A Rovio porém não gostou dessa história e reconheceu que iria reavaliar seu modelo de propaganda. Outro jogo popular que não escapou de ter os dados enviados para propagandas no jogo cair nas mãos da NSA foi Candy Crush.

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Capa da MAD em alusão à espionagem da NSA ao jogo Angry Birds. 
Fonte: http://www.madmagazine.com/blog/2014/01/28/angry-birds-nsa-edition

Mas o caso mais recente de espionagem em jogos eletrônicos é com a febre do momento: Pokémon Go. Já é de conhecimento a história por traz da empresa responsável pelo jogo. Em resumo, John Hanke trabalhava em relações no exterior para o governo dos EUA e fundou uma empresa em 2001 que desenvolveu um produto chamado Earth, que foi comprado pelo Google em 2004 e renomeado de Google Earth. Em 2010 John fundou a Niantic dentro do Google e em 2015 a empresa passou a não fazer mais parte da Google. Foi quando foi desenvolvido o Pokémon Go.

O aplicativo requer várias permissões por parte do usuário, que no fim das contas acaba dando acesso total à sua conta de e-mail para poder jogar. A empresa até reconheceu que requisita mais permissões do que deveria e iria corrigir isso. Apenas um “pequeno engano”. Até mesmo já foram feitos estudos de análise forense no aplicativo e algumas ferramentas já conhecidas da área foram atualizados para contemplar o aplicativo.

Jogos eletrônicos, antes considerados apenas como lazer, tem evoluído muito e se tornou mais uma forma de comprometer a privacidade das pessoas. Além de redes sociais e chats também não estamos seguros com simples jogos. Em tempo, ainda possuo um console de Super Nintendo então não tenho esse tipo de preocupação enquanto jogo meu Super Mario World.

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Como um grampo foi determinante na licitação do SIVAM

Com o objetivo de prover uma infraestrutura que fosse responsável pela vigilância e análise de todo o espaço, tanto aéreo quanto terrestre, foi desenvolvido o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). O projeto inicialmente foi apresentado em setembro de 1990 para o então presidente Collor tendo como embasamento para sua implementação a preservação do meio ambiente, combate ao narcotráfico, fiscalização de terras indígenas, entre outras atividades que fossem de responsabilidade do governo. Em resumo a vigilância seria para, além de combater os ilícitos, favorecerem a população local e a preservação ambiental.

Ao ser entregue o projeto para Collor, ficou determinado que as responsabilidades do projeto deveriam ser distribuídas, ficando definido que o Ministério da Aeronáutica seria o gestor do Sivam. O projeto então teve o envolvimento de grandes dezenas de técnicos trabalhando nele, até ser apresentado na conferência Rio 92, tornando-se de conhecimento público.

No entanto, seria necessário que uma empresa brasileira fosse responsável pelo desenvolvimento de um software gerenciador e pela intermediação da relação entre governo brasileiro e empresa brasileira que fosse implantá-lo. Assim, em junho de 93 o então presidente Itamar Franco, seguindo a recomendação do SAE e do Conselho de Defesa, determinou que não haveria licitação pela quantidade de informação sigilosa que seria envolvida no projeto. A dispensa de licitação para o projeto tinha amparo do artigo 24, inciso IX da lei 8.666, caracterizando então sua legalidade.

Mas Itamar determinou através do Decreto nº 892 de 12 de agosto de 1993 que fossem feitas consultas para se obter os melhores preços e as melhores condições técnicas para seleção das empresas. Feito isso foi escolhida a empresa Esca.

Também foi dispensada a licitação para contratar a empresa responsável por fornecer e instalar os equipamentos do Sivam, devido ao caráter sigiloso das informações. Então, em setembro de 93, o Ministério das Relações Exteriores solicitou propostas e orçamentos para 16 embaixadas. Em fevereiro de 94 já haviam onze propostas envolvendo oitenta empresas nacionais e estrangeiras, sendo que em abril sete propostas foram selecionadas por incluírem ofertas de financiamento: Dasa/Alenia (Alemanha/Itália), Raytheon (EUA), Thomson/Alcatel (França), Unisys (EUA), Fokker, IAI/Eletronic (Israel) e Sierra Tecnology (EUA).

Após a análise de todas as propostas, a fase final do processo de escolha ficou entre a francesa Thomson e americana Raytheon. Em julho de 1994 foi decidido então que o consórcio da Raytheon ganhou o contrato. A justificativa para determinação do resultado foi a proposta de financiamento, pois a Thomson exigia emissão de título do governo, o que poderia comprometer o projeto, segundo o governo brasileiro.

Até aí parece ser um processo de licitação normal, e foi o que pareceu por alguns anos até se ter conhecimento de algo estarrecedor. Em 1988 tornou-se de conhecimento público o sistema americano chamado Echelon, utilizado pela NSA para fazer monitoramentos ilegais, e que veio à tona por meio de uma ex-funcionária da empresa (já viram essa história antes?).

Em 1999 foi feito um relatório de autoria do jornalista escocês Duncan Campbell mostrando que o sistema, antes usado na Guerra Fria, estava agora sendo usado para fatores econômicos e espionagem comercial. Ainda segundo esse relatório, foi mostrado que o Echelon estava sendo usado para monitorar conversas telefônicas entre funcionários da Thomson e o governo brasileiro realizadas entre 94 e 95. E ainda mais: as escutas ilegais foram repassadas para a Raytheon, para que esta pudesse fazer uma oferta melhor que a da concorrente na licitação da Sivam.

Na época em que tomou conhecimento do ocorrido, o presidente do Brasil era FHC e o mesmo descartou qualquer possibilidade de rever o contrato ou de investigar a situação sob argumento de que o projeto já estava bem encaminhado. Chegou inclusive a rebater as críticas feitas em relação ao episódio em pleno discurso de inauguração.

Em 95 ainda houve a tentativa de se instalar uma CPI para investigar a situação. Após muito esforço, conseguiram instalar a CPI em 2001 (seis anos depois!), mas pelo tempo decorrido acabou não funcionando de forma adequada, tendo inclusive sessões que não chegaram a ser realizadas por não ter o quórum mínimo. A CPI é um capítulo à parte e um pouco sobre ela pode ser vista aqui.

Com certeza um episódio que ficou marcado na história brasileira, apesar de infelizmente não ser muito comentado hoje em dia, principalmente por envolver espionagem por parte da NSA, algo que aconteceu recentemente em nossa história. Recomendo fortemente ao leitor que procure se informar sobre esse caso. Seguem algumas referências:

[1] Artigo com história detalhada do processo de licitação do Sivam: http://www.fatece.edu.br/arquivos/arquivos%20revistas/perspectiva/volume2/5.pdf

[2] Artigo de Duncan Campbell sobre o Echelon: http://www.duncancampbell.org/content/echelon

Revisado em 09/11/2017